Nunca participei de algum programa de televisão. Minhas poucas aparições diante das câmeras foram aquelas obrigatórias durante o curso de Jornalismo da UCPel, quando teoricamente somos preparados para produzir reportagens e ancorar um telejornal. Fiz, gostei e ficou nisso.
Talvez por não ter trabalhado em TV, tenho um certo pé atrás com ela. Sou mais ou menos como aqueles tios ranzinzas que existem em toda família, aquele sujeito que fica o tempo todo achando algum defeito na programação e reclamando das notícias, do apresentador, do estúdio.
Minha maior implicância é com a falsa sensação de informação que os telejornais passam a quem assiste. Falsa porque é impossível alguém que tem no Jornal Nacional, da Record, da Band ou do SBT a sua única fonte de notícias saber realmente o que acontece. Com as pílulas de notícias que são despejadas em poucos segundos para cada assunto, o máximo que se consegue com é ter vaga noção pra depois se fazer de informado em um papo de boteco.
- Tu vistes esse rolo todo do Cachoeira?
- Pois é, vi ontem na TV. Que barbaridade!
- Bota barbaridade nisso! Esse país é uma vergonha...
Pronto. Ninguém sabe direito qual é o rolo, quem está envolvido com o quê ou o tipo de consequência que o fato pode ter. Mas todo mundo comenta vagamente e se dá por satisfeito por estar por dentro das atualidades.
Aí o editor do noticiário resolve “repercutir” a pauta. Chama um especialista para falar um pouco mais e explicar o assunto aos telespectadores. Então, quando o entrevistado começa a falar, o apresentador, já balançando o pé, inquieto, dá a deixa:
- Está bem... Ok... Obrigado...
- Mas eu gostaria de falar ainda sobre...
- É que o nosso tempo infelizmente acabou. Muito obrigado. E no próximo bloco, não perca, uma matéria especial sobre o estilo das periguetes que conquistou o Brasil com a personagem da novela das sete. Já voltamos!
Alamierda! Não consigo entender como um veículo que fica 24 horas no ar pode usar com tanta frequência o argumento da falta de tempo para deixar de aprofundar alguns assuntos. Ok, não quero, por exemplo, que a TV aberta passe o dia inteiro discutindo temas praticamente incompreensíveis como a reforma política ou a escalação desse tal de Juan na zaga da seleção olímpica do Mano Menezes. Não precisa tanto. Mas algumas coisas merecem mais do que alguns míseros dois ou três minutinhos de atenção. E esses temas não deveriam ser a tendência lançada por uma novela ou os benefícios do grão de bico na dieta dos diabéticos (embora esse último possa ser útil).
Ilustres especialistas destes que são chamados a toda hora pelos programas de TV para opinar desde o preço do tomate até a descoberta do Bóson de Higgs deveriam iniciar um movimento de boicote às emissoras. Porque é uma sacanagem o sujeito se despencar de casa até a sede da TV, passar aquele maldito pozinho na cara e ir pro estúdio pra ter apenas uns segundos para tentar explicar a quem está em casa aquilo que o telejornal faz de tudo para que não seja compreensível.