Um dia, lá pelos idos dos anos 90, perguntaram a um gurizote de uns 11 ou 12 anos: "Tu queres que esse cara seja o teu pai?". Ora, que pergunta a se fazer! Pai é pai. Ponto. Ou não?
A história desse piá com esse pai é diferente. Foi diferente. Ao invés da relação natural entre pai e filho, esse caso foi um daqueles que não se repete. Pelo menos com frequência.
Quando esse guri ainda nem era gente direito, com um ano de idade ou pouca coisa mais que isso, todas as dificuldades cruzaram seu destino. Problemas de saúde que fizeram alguns médicos simplesmente desistir. "Manda para Bagé, mas não tem muito o que fazer..." Assim, e com uma mãe sem grana e sem amparo familiar, esse cara abraçou essa criança como filho. Optou por isso, escolheu.
O guri desenganado sobreviveu, cresceu e chegou até os 11 anos ao lado desse pai. Porém, faltava algo. O piá não carregava o nome daquele que o escolheu. Eis que foi feita a pergunta. "Queres que esse cara seja teu pai? Carregar o sobrenome dele? Tens certeza?" Sim, ele tinha toda a certeza do mundo. EU tinha essa certeza desde que me entendi por gente, quando tentava esconder um dos sobrenomes que, por um desses pontos fora da curva, estava escrito em cada documento.
Lembro como se fosse ontem do dia em que estive em frente ao juiz e disse, sem qualquer dúvida: "Sim, quero ter o nome dele. Ele é o meu pai!". Depois disso, só recordo da felicidade (in)contida daquele que havia me escolhido. Ali eu também tinha feito essa escolha. E estava registrada.
Durante algum tempo, até sair a papelada, aguardei ansioso. Afinal, precisava ser oficialmente filho de quem decidi ser filho. E quando chegou a nova certidão, a nova identidade...
Vinicius Demetrio Mendes Peraça. Estava ali, filho de Jacira Mendes e de Manoel Lourival Peraça. Daquele momento em diante, assinar meu nome com o sobrenome virou orgulho. Olhava para meus colegas e pensava que ali na escola, na rua, na cidade, só eu tinha um pai que me escolheu e foi escolhido. Todos os demais tinham um pai especial, claro. Só que tradicional, nasceu, é pai, é filho e pronto.
Sou Mendes. Sou Peraça, sobrenome que a maioria já usa para se referir a mim, sem o Vinicius. E com todos os erros que esse pai cometeu, sinto um baita orgulho de ser chamado da mesma forma que ele. Porque não houve acerto maior do que o nosso, conjunto. Nós nos escolhemos. Ele quis ser meu pai. E eu quis ser seu filho, mais do que qualquer outra coisa que já optei na vida.
Hoje me despedi desse cara. E continuarei assinando, sempre, com muito orgulho:
Vinicius. Mendes e Peraça.





