Páginas

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Contra boatos não há argumentos. Nem punição.

Fica difícil respeitar instituições e autoridades quando o que se vê é uma postura de passividade e de “empurrar com a barriga”. Falo especificamente sobre os cada vez mais frequentes boatos que se espalham pela Internet visando desestabilizar administrações e economias.

Em 2013, milhares de beneficiários do Bolsa Família correram
aos bancos com medo do fim dos pagamentos.
(Foto: Fabio Rossi/Agência O Globo)
Em 2013, por exemplo, “informações” que circulavam nas redes sociais garantiam que haveria interrupção no pagamento do programa Bolsa Família. Milhares de beneficiários lotaram as agências da Caixa em 12 estados para garantir os saques antes da eventual suspensão. Tudo não passou de um susto e de uma mentira. A Polícia Federal reagiu à época dizendo que faria uma apuração para “tomar com rapidez as medidas cabíveis contra todos os envolvidos na origem e na divulgação destes boatos”. Quase dois anos depois, não se tem notícia de responsáveis e punições.

Agora, novo terrorismo. Pelo WhatsApp, circulam há meses mensagens afirmando que o governo estaria pensando em confiscar o dinheiro das poupanças, tal qual já ocorreu em março de 1990. Um trauma promovido pela então ministra Zélia Cardoso de Mello que tirou dos brasileiros as economias com o objetivo de tirar moeda de circulação e combater a inflação de – acreditem! – 1.782% registrada em 1989.

E diante de mais esse boato perigoso, capaz de causar impactos imprevisíveis na economia caso seja absorvido como foi o do Bolsa Família, uma tímida reação do Ministério da Fazenda. Apenas uma nota afirmando que “não procedem as informações”. E novamente uma promessa de ação da Polícia Federal.

Tem como acreditar na responsabilização de alguém? Da forma como governo e PF têm encarado estes boatos – que não têm qualquer caráter de ingenuidade ou brincadeira – só se pode imaginar que ninguém será responsabilizado. E que em breve alguma outra ameaça sem pé nem cabeça surgirá. E sabe o que vai acontecer? Exato!

DMCA.com

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Je suis opportuniste

As imagens e relatos são chocantes. Os ataques à Charlie Hebdo são bárbaros e injustificáveis. Temos acordo nisso? Então vamos adiante: está cheio de jornalista brasileiro “se achando” nessa onda da chacina ocorrida na redação do jornal em Paris.

É muito evidente que não se pode comparar o que faz a Charlie e seus cartunistas com que fazem, por exemplo, os repórteres e desenhistas dos jornalões e revistões nacionais. Soa ridícula a quantidade de jornalistas nas redes sociais, na TV e nos jornais tentando, indiretamente, colocar-se como guerreiros que arriscam suas vidas diariamente para abrir os olhos da sociedade (oh, que honra!).

O “Je suis Charlie”, iniciado na França e usado em solidariedade às vítimas, por aqui foi apropriado malandramente por alguns que querem trabalhar o autoconvencimento de sua importância no mundo ou, pior, justificar cafajestagens cometidas por uma imprensa nada plural em suas abordagens. O oportunismo é tão descarado que chegou ao ponto de uma Sheherazade da vida traçar um paralelo entre a Charlie Hebdo e a Veja. A Veja. A Veja! Pelo pouco que conheci e li da publicação francesa, esse tipo de comparação é uma outra forma de ataque violento.

Que me perdoem os diversos colegas que postaram textos se sentindo atingidos pelos tiros na redação francesa. Mas o cenário por aqui é bem diferente. Assim como os atiradores que invadiram o prédio no centro de Paris, nossa imprensa, muitas e muitas vezes, também dispara sem piedade e com armamento pesado contra quem não tem defesa. Nem mesmo alguém com uma caneta na mão para escrever e contrapor.

Je suis opportuniste.

DMCA.com

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Camarotização e falta de raciocínio

O mais recente vestibular da Fuvest usou no tema da redação o termo "camarotização" para abordar a segregação social. Relacionando ascensão da condição econômica da população e divisão de classes, a prova foi um estímulo ao pensamento crítico, como sempre deve ser. Achei muito bons, tema e termo. 

O que me impressionou - embora não devesse, mas... - foi o espanto e incapacidade de compreensão diante da proposta demonstrado por muitos dos vestibulandos após a prova. Não captaram o significado da nova palavra e o motivo do uso. Em que planeta esse pessoal vive? 

Talvez esteja aí um problema a ser solucionado por alunos e professores na preparação para vestibulares e Enem. Os que resolvem se dedicar a fundo nos estudos parecem viver na bolha dos livros e cursinhos. Só digerem aquilo que existir em fórmulas ou for traduzido em musiquinhas animadas para facilitar a decoreba. Fora disso, travam. E os que não estudam... Bem, esses estão preocupados em coletar likes naquela selfie postada no Facebook, feita com o tal "pau de selfie" preso à câmera.

Quem sou eu para aconselhar alguém quando o assunto é ensino, vestibular, essas coisas. Apenas pergunto se não parece claro que a bitolação de permanecer dias e noites babando sobre livros pode, criar dificuldades de entender de generalidades, do mundo à volta. Coisas que invariavelmente serão necessárias em provas, no trabalho, na vida. 

Essa turma, a que não entendeu a "camarotização", vai ter bastante tempo agora para pensar. Ligar os pontos pode ser um bom passatempo de férias pra essa gurizada exercitar o raciocínio, e não a memorização de números, datas, fórmulas.

DMCA.com