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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O ano em que o Brasil ficou devendo

Pode passar a régua. Fecha a conta, pois 2014 terminou e estamos no vermelho - não, não é uma menção ao PT no governo. No ano que se resumiu em esperar a Copa, viver a Copa esperando a eleição e, depois, viver a eleição, o Brasil fica com saldo negativo.

Não leve essa a avaliação para o resultado da Copa, dentro ou fora de campo. Ou para a definição das urnas. Se fosse isso, talvez o débito na fatura não fosse tão preocupante. Nosso país decepcionou enquanto sociedade, como civilização.


Porque a Copa, aquela com a qual sempre sonhamos em reeditar desde o Maracanazzo, foi cercada de pessimismo prévio. Alimentando-se mutuamente de negatividade, imprensa e povo torceram contra, apontaram problemas de logística, transportes, hospedagem, segurança, organização. Na hora do pega-pra-capar, quando tudo corria bem e o mundo elogiava, a primeira decepção: vaias, xingamentos. Ignorância em estado pleno, sem filtro. Para o mundo todo ver e ouvir, atônito, nossa incapacidade de ser feliz sem ódio no evento mais cobiçado do planeta.

Mas entre a vergonha alheia dos endinheirados camarotes e o massacre dentro de campo diante da Alemanha, sobrevivemos todos. Apenas Felipão saiu arranhado diante do resultado, extremamente desrespeitado por jornalistas e críticos que há 12 anos o tratavam como herói.

Com o adeus da Fifa, tudo virou eleição. Com a campanha curta em comparação a anos anteriores, tudo indicava tranquilidade. Que engano! Tudo de atípico que poderia ocorrer, ocorreu. A morte de um candidato, crescimento repentino do substituto e por aí vai (ou foi).

E o Brasil decepcionou de novo. Acusações, ofensas, preconceito. Toda sorte de ações raivosas surgiram a partir das redes sociais e se espalharam pelo país com rapidez jamais vista. A Internet virou um ambiente antissocial que contaminou amizades, famílias, ambientes de trabalho. Fulminou o bom senso. Todo mundo produzindo, curtindo e compartilhando conteúdo mentiroso, distorcido ou tendencioso. E sabendo disso, justamente com a intenção de difundir o ódio ao “adversário”.

Involuímos. Viramos aqueles que gostam da democracia apenas quando essa representa a vontade individual. Se o projeto oposto ameaça a escolha de um dos lados, o negócio é “desconstruir” - termo politicamente correto para “atacar”, “golpear” ou coisa parecida. No fim das contas, ninguém ganha. Todo mundo perde, todo mundo fica no negativo, a diferença é que uns mais e outros menos.

E a imprensa? Aquela que tem por aqui o status de “quarto poder” só serviu para jogar gasolina na fogueira. Seja nos grandes veículos ou nos menores, alternativos, poucos se salvaram. Jornalistas e analistas experientes colocaram as facas nos dentes e partiram para o ataque, assumindo um dos lados e buscando a decapitação do inimigo. De envergonhar.

Por sorte, o ano encerrou. Todo mundo de cara feia. Até 2015, nada mais que possa dividir mais a sociedade está previsto. Os pouco mais de 60 dias que restam servirão somente para que a cabeça dos esquentados esfrie e nossa mídia repense seu papel.

Estamos devendo, muito. E conseguir mudar esse saldo é uma baita tarefa a ser cumprida.


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