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sexta-feira, 7 de março de 2014

A chagas de Márcio de nada servem

Racismo e futebol são duas coisas praticamente indissociáveis. Aqui no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo todo. Seja qual for o campeonato, haverá um registro de preconceito. E tão comum quanto a discriminação a alguém pela cor da pele é a série de eventos posteriores que se seguem: exploração midiática, discursos repetitivos de solidariedade e promessas de ação que nunca passam disso, de promessas.

As lágrimas e a tristeza de Márcio Chagas só servirão
para dar audiência e promover discursos de solidariedade.
(Foto: Reprodução/RBS TV)
O caso do árbitro Márcio Chagas da Silva (aqui) é muito ilustrativo. Desde que tornado público, na quinta-feira dia 6, ele virou o personagem preferido da imprensa. Rádios, TVs e jornais o chamaram para dezenas de entrevistas. Mais do que contar o ocorrido, todos espremeram ao máximo a humilhação humana em busca da lágrima, da voz embargada, do show que prende o público e faz sentir pena.

Que mal haveria de existir em expor o problema?, talvez algum desavisado pergunte. Nenhum, se a intenção realmente fosse discutir o racismo no futebol e na sociedade. Ele existe. Você e eu sabemos disso e já presenciamos (ou até cometemos) nos estádios com os cantos e xingamentos, ou nas piadas, ou nos comentários simples do dia a dia.

Entretanto está claro que não é o que está ocorrendo. Ao invés de realmente meter o dedo na ferida, estamos todos vendo e alimentando mais um espetáculo sensacionalista, como tantos outros parecidos. É a trama da vez. Márcio conta e reconta a história; e a apresentadora do telejornal lembra do filho pequeno do árbitro; e do quão triste deve ser essa discriminação; e o presidente do Esportivo lamenta; e o promotor diz que está sendo apurado e... Ei, espera só um pouquinho! Já não vimos esse filme antes?

Sim, já vimos muitas e muitas vezes. E tal como em uma Sessão da Tarde, em poucos dias a história estará em cartaz de novo, com o mesmo roteiro e a mesma audiência. E também como no filme vespertino, reclamaremos, resmungaremos sentados no sofá pedindo mudanças sem que isso reflita em algo prático. Porque no fim das contas o atingido não existe na realidade de quem explora o drama ou assiste. Tal como nos filmes. Ali está o personagem, sofremos com ele naquele instante, contudo daqui a pouco já mudamos de assunto. A emoção e a indignação passam.

"Campo não é igreja". E ele é o "Capitão do Tri".
Então fica por isso mesmo!
Ou alguém ainda lembra do episódio em que Carlos Alberto Torres, (ele mesmo negro, registre-se), capitão do tricampeonato do Brasil em 1970, xingou o árbitro Paulo César Oliveira de “negro de merda”? E o que aconteceu depois disso? Ele foi a público em entrevistas justificar dizendo que “campo de futebol não é igreja, ali a gente fala o que sente, desabafa”. Tudo bem, passou, tá certo capita...

Não se engane, assim será com este novo caso de quinta-feira. A Federação Gaúcha de Futebol não moverá uma palha, os agressores não aparecerão, o Esportivo irá se livrar porque “não pode ser responsabilizado pelas atitudes de uma minoria” e tudo seguirá como sempre foi.

Depois disso tudo, restarão apenas as chagas do Márcio somadas à certeza de saber que daqui a pouco ele ou algum colega árbitro ou jogador estarão em outro campo, em outra partida e sendo xingados de novo.

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