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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ronaldo e o hipoidiotismo da mídia

Foto: Agencia O Globo
Cercado por inúmeras marcas patrocinadoras, os dois filhos e o presidente do Corinthians (não necessariamente nessa ordem) ao seu lado, Ronaldo anuncia sua aposentadoria dos gramados. A notícia, aguardada pela maioria dos jornalistas apenas para o final do ano, faz formar-se na sala de imprensa do último clube da carreira do Fenômeno um verdadeiro batalhão de repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e bicões. Com frases inexpressivas e apenas uma lágrima – para frustração geral de todos que ansiavam por um símbolo da despedida – o mais midiático dos jogadores da história do futebol brasileiro sai de cena.

Na escassez de algo ainda mais impactante que a despedida de um ícone do esporte mundial, uma isca jogada por Ronaldo é rapidamente fisgada pelo exército de jornalistas, mais emocionados que o próprio novo aposentado. O ex-jogador diz sofrer de hipotireoidismo, uma alteração na glândula tireóide que desregularia seu metabolismo. Seria este o motivo da forma tão semelhante ao objeto que levou o guri da periferia carioca aos mais imponentes castelos do mundo.

Apesar da jogada de Ronaldo, afirmando que muitos se arrependeriam de debochar do seu peso durante anos ao saber desta informação, a novidade não é tão nova assim. Desde que chegou ao Milan, em 2007, o problema já havia sido diagnosticado e tornado público. Porém, naquele momento interessava mais à imprensa criticar e fazer piadas com a forma física do jogador que fizera parte do fracasso na Copa da Alemanha, um ano antes. Ninguém demonstrou interesse em pesquisar o assunto, checar a informação e produzir material jornalístico esclarecedor. Não venderia jornal. Mais fácil seria ocupar páginas, horas de TV e programas inteiros de rádio acusando “Ronalducho” de desleixo e falta de profissionalismo. Talvez tenha até ocorrido isso, mas especular não é tarefa do jornalismo, correto?

Este é o comportamento padrão da mídia no Brasil. Descontadas raras exceções, a maioria da imprensa, sobretudo esportiva, contenta-se em aplaudir quem está no topo e pisar no pescoço de quem fracassa. Simples assim.

Quando a entrevista coletiva de Ronaldo foi encerrada e os programas esportivos passaram a repercutir a aposentadoria do jogador e sua “revelação” para o excesso de peso dos últimos anos, o tom geral de comentaristas e repórteres era o de um pedido de desculpas. Como crianças repreendidas pelos pais, todos baixaram a cabeça e aceitaram aquela verdade absoluta.

Mas ao menos algo de bom pode-se tirar de todo esse episódio. Agora sabemos que tão grave quanto o hipotireoidismo – que pode acelerar o fim de uma carreira como a de Ronaldo – é ter um mal que ataca jornalistas preguiçosos e mal-informados: o hipoidiotismo. E aposto que muita gente nas redações esportivas brasileiras sofre disso.

2 comentários:

Gislene Farion disse...

"A maioria da imprensa, sobretudo esportiva, contenta-se em aplaudir quem está no topo e pisar no pescoço de quem fracassa." Falasse tudo! Muito bom!

Anônimo disse...

Concordo.
Afinal de contas o Ronaldão é acima de tudo um ser humano e depois, um grande jogador.
Mas, agora ele não pode mais.