É comum no meio do futebol a expressão “torcedor de poltrona”. É como são denominados – na maioria das vezes pejorativamente – aqueles torcedores de um clube que não vão ao estádio alentar seu time do coração. Os que preferem acompanhar os jogos em frente à TV, na comodidade da sala de casa. Uma classificação que pode ser adaptada neste período eleitoral.
Com cada vez mais cidades contando com a propaganda em rádio e televisão, além da popularização da Internet e redes sociais, cresceram as manifestações virtuais e diminuíram as ações de corpo a corpo, na rua. Ou seja, surgiram os “militantes de poltrona”.
Pelotas, por exemplo. Se até alguns anos atrás as reclamações mais comuns eram da sujeira dos santinhos, dos jingles de gosto duvidoso e do barulho dos comícios e showmícios, hoje a situação é diferente. Muita gente sente falta da movimentação de eleições passadas e dá a disputa atual como parada. Há quem diga que a campanha está “gelada”. Não que as propagandas de TV e rádio sejam novidades, mas com as regras cada vez mais rígidas para a campanha de rua, as opções adotadas pelos partidos são raras panfletagens e algumas caminhadas, nada mais do que isso. Comícios? Até o momento, faltando menos de um mês para o primeiro turno, nenhum. A gurizada nova de Pelotas nem deve saber como funciona um negócio desses.
Retuíta aqui, curte ali, compartilha lá
Se nas ruas pouco se nota a movimentação das campanhas, na Internet o bicho pega. Graças às redes sociais, dificilmente quem se conecta fica imune a algum apelo eleitoral – direto ou indireto. Quando não é uma postagem do próprio candidato que surge na tela, alguém identificado com as campanhas se encarrega de espalhar conteúdo. Seja favorável ao seu preferido ou contrário aos adversários.
Tamanha importância vem sendo dada a este tipo de militância que já há quem se debruce sobre a artilharia virtual das campanhas. O site Monitor das Eleições é um exemplo disso. Desenvolvida por alunos e professores dos cursos de Publicidade e Propagada e Jornalismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e de Design Digital e Design Gráfico da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a página traça relatórios semanais (como o gráfico acima) sobre as atividades de cada candidato a prefeito no Facebook e no Twitter. Itens como número de postagens, seguidores e curtidas são comparados. De acordo com o site, a intenção é “observar como a mídia social está sendo utilizada pelos candidatos a prefeitura da cidade durante as eleições de 2012”.
Enquanto isso, a poucos quilômetros daqui...
Basta ultrapassar os limites de Pelotas para que se tenha contato com outra realidade eleitoral. Rodando um pouco pela BR-293 (cerca de 100 quilômetros) e chegando a Pinheiro Machado, cidade com 12,7 mil habitantes (sendo que, oficialmente, 10,9 mil são eleitores), temos um contraste com o universo pelotense. Lá não existem rádios ou televisões locais. Apenas a recepção das emissoras vizinhas de Bagé ou Pelotas. O que obriga os candidatos e simpatizantes e fazer a militância à moda antiga.
Chegando na cidade, a primeira percepção: as bandeiras estão por toda parte, em centenas de casas. É uma competição silenciosa. Cada morador quer dar mais visibilidade ao símbolo do seu partido. Quanto maior e mais no alto a bandeira do concorrente, maior o estímulo para espalhar mais bandeiras pela cidade. E bem destacadas!
Mas a principal diferença entre o perfil “de poltrona” da campanha pelotense e o cenário pinheirense (e, acredito, de todas os pequenos municípios do interior) está no envolvimento. Como a agitação não faz parte da rotina da cidade e não existem sequer rivalidades esportivas para movimentar opostos, a disputa política realizada a cada quatro anos é o Bra-Pel ou o Ba-Gua da cidade. Todo mundo tem lado e as discussões, sempre acaloradas, estão em todas as rodas de chimarrão.
Com seus adesivos nas janelas, nos carros e no peito, todos são cabos eleitorais e, mais do que isso, agentes fiscalizadores a serviço do seu candidato. Qualquer movimento suspeito dos adversários, qualquer discreta insinuação nos comícios – sim, lá eles existem e ocorrem no mínimo uns três a cada semana – é imediatamente rebatida. Nada fica sem resposta à altura. Nada! Sempre há um militante na rua fazendo campanha, criando (ou combatendo) boatos. Ou se vai às ruas pelear por cada voto ou se fica para trás.
Ao contrário de Pelotas, nos pequenos municípios do interior não há tempo para ficar sentado em casa. Ninguém pode se dar ao luxo de viver da política de poltrona.


Um comentário:
Simplesmente, muito bom. Belo texto e mais interessante, ainda, a tua percepção de tudo o que acontece aqui e lá. Realmente, nota 10!
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