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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Um jornalismo que não questiona

Não se trata de uma contrariedade ao fato de que hoje, mais do que nunca, as informações estão à disposição em qualquer lugar, em qualquer horário e sobre tudo que se possa imaginar. Da água de coco no Leblon bebida pela protagonista da novela ao escândalo administrativo em uma cidadezinha do interior do Piauí, tudo (ou quase tudo) é notícia. E em grande quantidade. E rápido. Isso é um bom avanço.

O problema é quando essa quantidade e agilidade (confundida muitas vezes com pressa) nos atropelam e não percebemos que elas escondem a falta da qualidade, as brechas no conteúdo ou, simplesmente, opções editoriais duvidosas.

Notemos algumas notícias destacadas nestes últimos dias. A primeira, nacional: “Joaquim Barbosa questiona partidos brasileiros em palestra a estudantes”. A segunda, local, de Pelotas: “Municipários rejeitam pedido de participação de Eduardo Leite em Assembleia”.

Tanto na manchete sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal quanto no caso do atrito entre o prefeito de Pelotas e servidores, não é a necessidade de agilidade para gerar a notícia a culpada por eventuais problemas. No primeiro exemplo, a seletividade de quem noticia e repercute é gritante. Já no segundo, quero crer, o pecado está no oficialismo.

Seletividade porque STF e Joaquim Barbosa são, inegavelmente, os personagens preferidos da imprensa atualmente. Enquanto a frase do ministro avaliando os partidos brasileiros como sendo “de mentirinha” ganhou generosos espaços em todos os grandes sites e jornais (como tudo o que ele fala, pensa ou faz) e tornou-se do conhecimento de todos, o mesmo não se pode dizer de outra informação sobre o STF. A divulgação de dados mostrando que os ministros do Supremo viajam com as esposas durante as férias para destinos internacionais com tudo pago pelo contribuinte só foi percebida pelo leitor, ouvinte ou telespectador mais atento, que realmente presta atenção aos noticiários. Aos demais, passou batida. Fosse este um expediente de parlamentares ou governadores, provavelmente o alarde seria maior. Em um raciocínio lógico, o que pode interessar mais ao cidadão: a opinião pessoal de um ministro ou o que seus pares fazem com o dinheiro público?

Na outra manchete, a negativa dos servidores públicos municipais de Pelotas à presença do prefeito na assembleia geral do sindicato da categoria virou polêmica. E alvo de críticas fortes de toda a imprensa local. O tom foi sempre o mesmo: “Os municipários sempre reclamaram da falta de diálogo com a Prefeitura e agora não querem que o prefeito esteja presente?”

Com a repetição insistente deste argumento (?!), estabeleceu-se perante o senso comum, então, a imagem de um sindicato intransigente, cujo objetivo seria apenas manter uma relação conflituosa com o Poder Executivo. Nada muito diferente, aliás, do que historicamente acontece na mídia daqui, de São Paulo ou de Quixeramobim.

Talvez esteja presente, também neste exemplo, um aspecto de seletividade da notícia. A seleção por aquilo que é “oficial”. Ninguém questionou na imprensa pelotense, por exemplo, se em assembleias de sindicatos de metalúrgicos ou domésticas Brasil afora os patrões estão lá, presentes, assistindo e opinando.

Falta de questionamentos, de fustigar o contraditório ao oficial. Mais do que a pressa em divulgar novidades, esse é um dos aspectos mais notáveis desse jornalismo que, na média, oferece de tudo um pouco. E nada de muito.

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