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sábado, 8 de junho de 2013

A rua é a arquibancada do Brasil

Amanhã (9) teremos mais um amistoso da seleção em preparação para a Copa das Confederações. Brasil contra França na Arena do Grêmio. Mas quero voltar um pouco ao jogo anterior, contra a Inglaterra, disputado no Maracanã. Na verdade não é o jogo em si que importa, e sim o cenário e o contexto daquela partida, que mostram muito sobre o que está sendo feito com o futebol no Brasil.

Novo Maracanã. Moderno, luxuoso, mas para poucos. (Foto: Ivan Pacheco, Veja)
Quem acompanhou pela TV sem concentrar apenas no que Neymar tentava fazer no ataque ou em como a defesa reagia às investidas de Rooney deve ter notado o comportamento frio da torcida brasileira na maior parte do tempo. À exceção dos tradicionais e irritantes gritos de “sou brasileiro com muito orgulho”, de resto o público foi apenas expectador. Uma plateia sentada confortavelmente em seus bancos Fifa, em arquibancadas Fifa de um estádio que já teve o jeito do Brasil, mas agora tem a cara da Fifa.

Essa transformação do padrão dos estádios brasileiros impulsionada pela Copa do Mundo tem seu lado bom. Não pelas obras milionárias em estádios públicos que tão logo seja erguida a taça em julho de 2014 ficarão praticamente às moscas. Mas pelo estímulo a que os clubes invistam em tornar suas casas lugares menos hostis, onde haja espaço para o torcedor circular, bons banheiros, bares decentes, acesso facilitado e outras coisas que parecem óbvias e essenciais em locais de grande circulação de pessoas.

O problema é o preço que essa modernização, que esse tal “padrão Fifa”, está custando ao futebol aqui do país, um patrimônio cultural que, embora tenha chegado da Inglaterra, é, sim, do Brasil.

Alguns críticos das reformas dizem – com razão – que as reformas exigidas pela Fifa extraíram a alma de tradicionais palcos brasileiros, no sentido de que alteraram a aparência das construções. Realmente, por dentro todas essas arenas modernas parecem a mesma coisa. Maracanã, Mineirão, Fonte Nova, campos que antes batíamos o olho e reconhecíamos perderam a cara.

Porém, o buraco é mais embaixo. Os estádios brasileiros estão perdendo a alma por outro motivo: a elitização do futebol. De uns tempos para cá se criou o consenso de que torcedor bom é aquele que tem condições de pagar uma boa grana por um ingresso. No mínimo 50 reais, se for um jogo qualquer. Agora imagine o quanto pesa no bolso de um trabalhador que recebe, digamos, dois salários mínimos (cerca de 1.300 reais), ir torcer pelo seu time com o filho e a esposa. Transporte ida e volta, um lanchinho no estádio (que não é nada barato), três ingressos. Lá se vão pelo menos uns 200 contos, ou 15% da renda do cidadão. Isso se esse trabalhador se der ao luxo de ver seu time ao vivo apenas uma vez no mês. Convenhamos, uns bons trocados e que fazem falta!

O reflexo dessa exclusão do torcedor que tradicionalmente frequentou jogou no Brasil é um estádio, repito, elitizado. Vai às partidas somente aquele público que pode desembolsar esse valor sem remorso.

Voltemos, então, ao Maracanã do domingo passado. Os ingressos para Brasil x Inglaterra custaram, em média, 160 reais. Então, se puder, pegue um vídeo da transmissão em que aparece uma daquelas imagens da torcida e preste atenção. Procure quantos negros estavam na arquibancada. Aposto que dificilmente serão vistos mais do que é possível contar nos dedos das mãos. Parêntese: cito especificamente esta etnia porque, segundo o Censo 2010 do IBGE, negros e pardos representam 71% dos brasileiros que vivem na extrema pobreza.

Cada um aí desembolsou cerca de R$ 160. E o povão, não foi convidado?
(Foto: Ivan Pacheco, Veja)
Ou seja, estamos criando uma espécie de apartheid futebolístico no Brasil. A partir dessa nova visão dos estádios e de como deve ser a plateia, é excluído ao torcedor comum, que sempre fez festa e apoiou seu time, o direito de ir aos campos. A este sujeito restará o velho rádio AM, já que até na televisão o futebol se tornou artigo de luxo, voltado a quem pode pagar mensalidade para ter o pay-per-view. Daqui a pouco, quando cair a ficha dessa exclusão, não duvido que seja necessário criar uma política de cotas para o público do esporte.

Aliás, duvido que tenha sido a intenção da Fiat com seu novo comercial de TV, mas nunca uma campanha que tivesse como mote o futebol fez tanto sentido. Como estádio agora é lugar para pouquíssimos, com o povão ficando de fora, não há dúvidas de que “a rua é a maior arquibancada do Brasil”.

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