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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando um número bastava

Houve um tempo – e não faz muito – em que o futebol não era tão burocrático quanto hoje. Um tempo em que as coisas eram claras e simples. Nada de grandes teses, teóricos engravatados e atletas balaqueiros rodeados de agentes e assessores. O jogo de bola era mais simples e, portanto, mais atrativo e apaixonante.

Digo isso baseado em algumas observações sobre o atual ambiente futebolístico. Entrevistas, por exemplo. Tente assistir a um destes programas de TV que fazem um balanço após uma rodada de jogos e vai ter a prova de que, sim, existe algo mais repetitivo do que os roteiros de novelas das oito.

Técnico do time perdedor:

- Não gosto nem quero falar de arbitragem, mas fomos prejudicados com um lance de pênalti claro a nosso favor no primeiro tempo que não foi marcado!

Autor do gol da vitória:

- Sabíamos da dificuldade que iríamos encontrar, mas graças a Deus conseguimos fazer um bom jogo e conquistar os três pontos.

E por aí vai.

Mas nada resume tão bem o quão chato vem se tornando o futebol quanto as novas teorias que aparecem. Tal qual coleções de roupas, entram na moda, permanecem por um tempo e depois são superadas por outras tão esdrúxulas quanto a anterior. Tempos atrás chegou-se ao absurdo de circular entre técnicos e comentaristas a ideia de que um bom atacante não precisaria fazer gols. Bastaria “prender os zagueiros”. Se é para prender alguém, que se contrate um policial, oras! Atacante tem é que fazer gol. De barriga estilo Renato Gaúcho ou de bunda como o Muller, pouco importa. Como diria Dadá, “feio é não fazer gol”.

" E vamos agora ao resultado parcial da Tele Sena de Independência: 43, 99..."

Nesse mesmo sentido da reinvenção do ludopédio, agora é consenso que cada jogador do time precisa ter numeração fixa. Se a intenção é criar uma identificação para a torcida, tudo bem. Mas o tiro está saindo pela culatra. A maioria das equipes entra em campo com uniformes padrão futebol americano. 27, 56, 32, 45... A escalação mais parece um sorteio da Tele Sena. Só falta o finado Lombardi!

Quem consegue saber a posição em que joga um sujeito que leva às costas o número 45?! Houve um tempo em que um boleiro era definido com um número. Você chegava no estádio, via um jogador aquecendo e perguntava ao vizinho na arquibancada:

- Quem é aquele ali com a bola?

- É o Valdir.

- Não conheço. Joga de quê?

- É um oito.

Pronto, tudo estava explicado. Ninguém precisava ficar dizer que o Valdir era um segundo volante canhoto que veio do Noroeste, tinha um bom desarme e marcava em média 0,23 gols por partida. Era desnecessário. Todo mundo sabia o que um oito fazia.

O mesmo valia para o sete, o dez, o nove. Quando um guri chegava para treinar pela primeira vez em um clube, bastava o técnico estabelecer o número da camisa e o candidato a craque já sabia o que precisava fazer. Hoje tudo gira em torno de palestras, apresentações em powerpoint com disposição tática, vídeos motivacionais. Um grande embuste!

Houve um tempo em que o futebol era divertido, excitante. Feito para ser jogado por todos. Agora não. Grandes sabichões estão transformando tudo isso em teses quilométricas e conceitos que mais parecem as maçantes e inúteis (?) equações do tempo de escola. Bem diferente do tempo em que números comuns, de um a onze, bastavam para fazer a alegria da gurizada.

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