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quinta-feira, 15 de março de 2012

Coleta de lixo reciclável de Pelotas: coisa de jerico

Há exatamente um mês a Prefeitura de Pelotas lançou, com pompa, circunstância e devidos salamaleques da imprensa local, o novo sistema ampliado de coleta seletiva de lixo porta a porta. Na prática, o que passou a ocorrer foi a utilização de caminhões específicos para recolhimento de resíduos recicláveis. Os veículos circulam pela cidade em dias alternados para que os moradores entreguem seu lixo limpo e separado. Tinha tudo para ser uma boa ideia. Mas colocada na cabeça de jericos, qualquer boa invenção pode se tornar uma porcaria. E foi mais ou menos o que aconteceu nesse caso.

Foto: Rafa Marin / Prefeitura de Pelotas
O prefeito Fetter Jr. classificou a nova coleta como parte de uma “revolução silenciosa”. E não poderia ter definido melhor sua invenção – ou de sua equipe. O caminhão que percorre os bairros toca uma musiquinha ao estilo “gás do cachorrinho”. Porém, o volume do som é tão baixo que na maioria das vezes mal se percebe sua passagem. Mesmo assim, dos males esse é o menor. Afinal, se for para optar entre barulho ensurdecedor e um discreto jingle, que seja da forma como está.

Um dos problemas é que, ao invés de simplificar, a coleta do lixo reciclável tratou de complicar a vida de quem quer colaborar com as cooperativas de reciclagem e o meio ambiente. Isso porque não existem contêineres especiais para resíduos recicláveis nos quarteirões. Isso obriga o cidadão a ficar de campana em casa nos dias marcados aguardando a passagem dos coletores – de preferência com o rádio e a TV desligados para ouvir a musiquinha – e, assim, se livrar de garrafas, caixas e potes. Não seria mais fácil ter locais próprios para estes materiais e o caminhão recolher nos dias marcados?

Entretanto, o mais inacreditável é que essa coleta musical não levou em conta que muita gente mora em apartamentos, em conjuntos residenciais. Imagine um sujeito prestativo e que se dispõe a lavar e separar seu lixo reciclável. Ele deixa tudo guardado, esperando a musiquinha. Primeiro precisa ouvir o sussurro do caminhão passando na rua ao lado do seu condomínio. Tendo essa sorte, terá que vencer outros desafios, como sair se despencando quatro lances de escada abaixo com sacos pendurados nos braços – sim, nosso amigo mora em prédio sem elevador e no quarto andar. Depois disso, deverá correr uns bons 20 ou 30 metros até a portaria do condomínio – afinal o infeliz mora no bloco Z, lá no fundão. Feito isso, o máximo que o coitado conseguirá é enxergar o caminhão há léguas de distância, pois certamente ele não ficará parado na rua, aguardando ansiosamente as sacolinhas.

Mas pelo visto os responsáveis pela iniciativa não pensaram nisso. Todo mundo bate palmas e, na prática, uma minoria consegue colaborar com a nova modalidade de coleta. E como ninguém reclama das falhas, a revolução segue silenciosa. Silenciosa e suja.


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