Já aviso de antemão: esqueça seu ódio ou seu amor pelo Lula por um instante. Faço esse pedido porque sei que qualquer coisa que se fale sobre ele gera uma batalha entre atacantes e defensores. Dito isso, quero apenas usar uma frase dita por ele esta semana para ilustrar o que irei escrever a partir do próximo parágrafo. Disse o ex-presidente: “Vocês já viram a cara de algum banqueiro no jornal? Sabe por que não sai? Porque são eles que pagam as propagandas.”
Agora, aos fatos. Na quarta-feira (dia 12) uma ação da Receita Federal e do Ministério Público chamada de Operação Dominó cumpriu mandados de busca e apreensão em dez empresas gaúchas que, juntas, teriam sonegado mais de R$ 40 milhões em impostos. Sete destas com sede em Pelotas. A falcatrua era feita através de um software (criado também por pelotenses) que emitia cupons fiscais em um equipamento não autorizado pela Receita, fazendo uma contabilização paralela das vendas.
Charge: Tiago Recchia
Todo mundo deu a notícia. TVs, jornais, sites, rádios. Mas pode procurar à vontade que em nenhum dos veículos será encontrada qualquer menção aos nomes das lojas ou dos proprietários pegos com a boca na botija. “Uma série de empresas”, “varejistas”, “lojas do setor de vestuário”, termos deste tipo, bem genéricos, foram usados pela imprensa. O cuidado para não entregar os sonegadores foi tamanho que as imagens da operação mostradas na TV não deixam aparecer sequer um pedaço da fachada das lojas. E a informação, como fica?
Curioso como a cobertura dos mesmos veículos de imprensa pode ser tão diferente para casos de corrupção. Porque sonegação de imposto é um tipo de corrupção, sim. Tanto quanto desvio de verba em administrações públicas. Porém, em casos como esse dos empresários pelotenses, ninguém é identificado. Bem diferente do que ocorre quando o personagem é, por exemplo, um político. Com ou sem provas, tão logo surge a suspeita o nome já é publicado e, especialmente, julgado pelo tribunal midiático. Parte-se do pressuposto que políticos são todos iguais, todos ladrões. Portanto, acusa-se antes e revira-se a vida do sujeito durante as investigações, colocando o rosto em todos os jornais. E depois, se ele for inocente? Bom, aí é só esquecer o assunto e procurar outra manchete.
O empresário que sonega é tão corrupto quando o político que desvia. Afinal, em ambas as situações o dinheiro que deveria ser revertido em serviços à população está ficando nos bolsos de alguns malandros. Ou estou errado? Aos olhos da imprensa parece que sim, estou. Pois assim como há o pré-conceito estabelecido sobre a desonestidade política, há o consenso de que empresários são os grandes responsáveis pelo desenvolvimento do Brasil, por gerar emprego e renda. São bravos resistentes no cenário econômico em que são oprimidos por taxas e tributos, cuja imposição parte justamente dos desonestos de colarinho branco, ávidos por embolsar tudo. É ou não é assim que nos vendem?
A abordagem quase que constrangida da imprensa no caso dos sonegadores pelotenses mostra bem como funciona o jornalismo para boa parte daqueles que escolhem o que será pauta, editam e levam até o público. Dependendo dos personagens envolvidos, usam-se dois pesos e duas medidas. Mas nenhum comprometimento com a informação.
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