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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Mobilização, animal


"Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais."

Também sou um dos adeptos da conhecida frase do escritor português Alexandre Herculano. No entanto, fico intrigado com o envolvimento cada vez mais forte das pessoas com os bichos e a alienação que isso é capaz de provocar em alguns casos.

Explico. Neste final de semana um homem usou uma lança para atacar dois cães no bairro Fragata, em Pelotas. O saldo foi a morte de um dos animais e ferimentos graves no outro. Segundo o agressor, a ação contra os cães teve o objetivo de defender o filho, que pedia socorro diante de possíveis ataques. Dia desses foi manchete, também em Pelotas, o caso de uma mulher que chutou um poodle e o jogou do terceiro andar de um prédio no bairro Pestano.

Dois casos de crueldade contra os animais, cada um com uma característica, mas que tem em comum um aspecto curioso: foram destaque nos noticiários locais e mobilizaram centenas de pessoas nas redes sociais. Graças a essa inconformidade até uma audiência pública na Câmara de Vereadores foi marcada para debater o tema (hoje, dia 3, às 18h30). É válido? Pode até ser, embora seja preciso levar em consideração o fato que, em muitos casos, audiências públicas como essa costumam dar em nada de prático.


Ok, bicho não é lixo.
Mas será que manifestações como essa, de março de 2010 em Pelotas, que cobrou providências públicas contra violência e abandono de animais, não poderiam inspirar as pessoas a reagir também contra a falta de segurança?



O interessante dessa história toda é a capacidade que os cidadãos desenvolveram de se indignar com os maus tratos contra os animais em contraponto à resignação diante da violência contra as pessoas. Sozinhos, estes dois casos que citei acima envolvendo animais geraram muito mais comoção popular do que todos os quase 40 homicídios registrados em Pelotas juntos. Basta fazer uma busca nos sites de notícia e nas redes sociais, ler as manifestações e comprovar.

Assaltos, assassinatos e outros tantos crimes não revoltam tanto. Moradores de rua queimados são assunto nas conversas por alguns instantes e daqui a pouco são substituídos por uma fofoca qualquer de celebridade. Vida que segue. Se algo parecido acontece com um cachorro, vira passeata e dá até gente querendo linchamento do animal (o que queimou, não o queimado).

E aos poucos a ordem das coisas vai ficando estranha. Pessoas menos racionais defendendo animais cada vez mais humanizados.


Em tempo

Antes que achem que não concordo com a defesa dos animais, esclareço que acho fundamental o respeito aos bichos e a punição a quem os maltrata. O que não acho aceitável é que pessoas sejam empaladas, escalpeladas ou queimadas, como ocorreu esse ano em Pelotas, e isso não cause a mínima reação e cobrança da população sobre as autoridades.

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