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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma vida inteira em nove anos

Tudo é uma questão de ponto de vista. Aí está uma afirmação corretíssima. Meu exemplo nestes últimos dias confirma isso. Já fazia um balanço desanimado do período de férias sem grandes viagens entre dezembro e janeiro, achando que nada tinha valido a pena, quando um duro golpe me fez perceber que na verdade meu período de descanso foi um dos mais preciosos que já tive.

Quinta-feira passada (dia 2) perdi um companheiro inqualificável. Argos, um labrador com pouco mais de nove anos, morreu com problemas cardíacos. Morava em Pinheiro Machado, na casa do meu pai, de onde saí para estudar e trabalhar em Pelotas pouco após ele se tornar um cão adulto, lá pelos seus dois anos.

Num primeiro momento, aquele filhote que chegou com seus 45 dias representava uma realização. Desde criança sonhava em ter um cachorro. Mas com o tempo toda a irritação inicial por arrumar milhares de vezes as suas mesmas bagunças se transformou numa amizade sem igual. Inseparáveis, foi o que nos tornamos. Mesmo depois que passei a morar em Pelotas, jamais nos desligamos. Tanto que em todos os finais de semana possíveis eu pegava a BR para aproveitar o tempo ao lado dele. Nem que fosse um único dia.

Toda pessoa que tem bicho de estimação acha o seu especial. O Argos foi mais que isso. Por mais contraditório que possa parecer, foi esse animal que me deixou mais humano. Sua amizade e as ações puramente passionais mudaram meu temperamento em muitos aspectos. Aquele comportamento dele, que os entendidos chamam de irracionalidade, significava outra coisa: ser feliz.

A racionalidade pode nos tornar infelizes. Quando colocamos a razão (humana) acima da paixão (animal) em nossas escolhas, em geral estamos sufocando nossa vontade de contemplar a felicidade imediata. Projetamos consequências que, muitas vezes, não passam de desculpas esfarrapadas para nossa covardia diante da possibilidade de um drops de irresponsabilidade – ou felicidade, pode ser a mesma coisa. Acontece, por exemplo, quando negamos uma saída com os amigos num domingo à noite porque na segunda pela manhã o trabalho espera. A covardia disfarçada de racionalidade.

O Argos me mostrou que a vida não pode ser assim. Para ele, mais do que qualquer outra coisa no mundo, o importante era estar ao meu lado. Pouco importa se eu corria na rua, assistia TV ou simplesmente dormia. Ao contrário de mim, que tenho amigos e emprego para dividir a atenção, ele só tinha a mim. Mais ainda: talvez eu viva 70, 80 anos. Ele não. E pela intensidade com que viveu e dedicou a mim sua amizade, certamente sabia disso. Apesar de lamentar muito sua morte e saber que nunca mais encontrarei sentimento igual ao que tive por esse cão, hoje sou feliz por saber que consegui compreender a tempo todas as lições que ele me passou.

Se nestas últimas semanas perdi de visitar praia ou Serra, por outro lado ganhei muito mais. Dediquei todo tempo que pude a fazer do Argos o cão mais realizado do mundo. Simplesmente dei atenção àquele cuja amizade foi insuperável. Àquele que ensinou que bastam nove anos de uma amizade de verdade para transformar uma vida inteira.

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