Sábado passado, 10 de novembro, a Bibliotheca Pública (que não é pública) Pelotense sediou o baile de gala dos 200 anos de Pelotas. Mais um dos eventos comemorativos que ficou restrito a um grupinho. Os mesmos de sempre, usando black-tie, bebendo espumante, ouvindo jazz e compartilhando opiniões sobre o quanto a cidade é bela, o quanto a cultura é fantástica e coisas do gênero. Não duvido até que tenham elogiado a aberração do novo pórtico na Academia Pelotense de Letras.
Com convites custando entre R$ 80 e R$ 200, o baile recebeu tratamento diferenciado pela imprensa. Jornais e telejornais locais deram destaque ao evento, ocupando um bom espaço para mostrar os ilustres que lá estiveram. A se ressaltar, também, o viés altruísta do evento. O dinheiro arrecadado foi destinado à Associação dos Amigos do Museu da Baronesa.
Não sou radical ao ponto de não concordar com um baile de gala. Muito menos com a ajuda a uma entidade que mantém um museu importante da cidade. Minha inquietação é outra. Por que isso mobiliza tanta gente desta tal sociedade pelotense? Por que merece tanto destaque na TV e no jornal?
Pelotas tem 330 mil habitantes. Destes, 142 mil vivem com no máximo dois salários mínimos. Outros tantos – cerca de 50 mil – estão abaixo disso e sobrevivem apenas com a ajuda de programas de distribuição de renda do governo federal (as tais “bolsas-esmola”, que muitos gostam de criticar). E para estas pessoas, o que Pelotas ofereceu para celebrar o bicentenário?
Poucos foram os eventos destinados àqueles que realmente representam a população da cidade. E, mesmo assim, não se viu tanta festa, tanto espaço para divulgação e – muito menos! – mobilização para ajudar com algo concreto, como melhorias em postos de saúde ou escolas. Óbvio que não daria para resolver tudo, sei disso. Mas alguém ouviu falar de entidade da sociedade de Pelotas envolvida com arrecadação para, por exemplo, auxiliar na reforma e funcionamento de um único postinho de bairro? Ou quem sabe fazendo algo por uma das tantas escolas precárias? Isso, sim, seria algo de classe na homenagem à cidade e que orgulharia os pelotenses.
A alta sociedade de Pelotas tem todo o direito de comer o seu caviar e festejar os 200 anos da cidade. Contudo, é difícil aceitar que um evento como esse seja um dos eventos mais destacados pela mídia no calendário do bicentenário. Enquanto assistiu às imagens do baile no horário do almoço, grande parte dos pelotenses deve ter ficado imaginando que tantos motivos aquela turma teria para tamanha celebração.

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