“Hoje não, hoje não! Hoje sim! Hoje sim?!”
Cléber Machado jamais descreveu e jamais transmitirá gol algum capaz de ser mais marcante do que a antológica e broxante narração acima.
Neste sábado completará dez anos que o automobilismo brasileiro passou por uma vergonha que, se não é a maior desse esporte, certamente está marcada na história. No dia 12 de maio de 2002, durante o GP da Áustria de Formula 1, Rubens Barrichello submeteu-se ao jogo de equipe da Ferrari e entregou a corrida ao seu companheiro de escuderia, Michael Schumacher, a poucos metros da linha de chegada.
Barrichello liderava a corrida a oito voltas do final quando recebeu ordens pelo rádio para que diminuísse o ritmo, possibilitando ao piloto alemão a ultrapassagem e a consequente vitória na sexta etapa do campeonato daquele ano. Porém, o "presente" a Schumacher só foi entregue após a última curva, a menos de 50 metros do final. A estratégia visava naquele momento ampliar a liderança do alemão no mundial de pilotos (encerrou a corrida com 54 pontos, o dobro do segundo colocado, Juan Pablo Montoya) e consolidar a Ferrari na ponta do mundial de construtores (após o GP da Hungria, 66 pontos para a escuderia vermelha e 50 para a rival Williams). Desnecessário, já que Schumacher havia vencido quatro das cinco primeiras provas e ao final da temporada conquistaria o título com 144 pontos, quase o dobro dos 77 pontos do vice-campeão Barrichello.
Assista - e envergonhe-se - com a última volta
do GP da Áustria e o pódio.
Hoje, uma década após o fiasco, o brasileiro segue dando explicações e tentando justificar o injustificável. "Fui até o final, até a última curva, falando que não ia deixar ele passar. Até que eles falaram algo relacionado a alguma coisa mais ampla. Não era contrato. Era uma situação que deixou no ar. Eu não posso contar o que eles falaram, mas foi uma forma de ameaça que me fez refletir se eu teria de repensar a minha vida, porque o grande barato para mim era guiar", disse Barrichello em entrevista à edição da revista Playboy deste mês.
Getty Images
A decepção foi tão grande naquele GP que os dois pilotos da Ferrari foram vaiados no pódio. Constrangido, Schumacher cedeu seu troféu e o lugar no topo ao colega que entregou a corrida. Pressionada pelo descrédito da Formula 1 perante seus fãs, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) viria depois a alterar as regras para tentar coibir o jogo de equipe.
Não adiantou muita coisa. Embora nunca mais tenha ocorrido incidente tão ridículo quanto aquele protagonizado pela dupla da Ferrari, os torcedores passaram a desconfiar de tudo e a manipulação dos resultados pelas equipes tornou-se praticamente oficial.
Ferrari e Schumacher são atores desse fracasso do esporte. Porém, coadjuvantes. A estrela maior desse episódio lamentável é o subserviente Rubens Barrichello. Poderia hoje ser lembrado como o piloto que bateu no peito e encarou a poderosa escuderia italiana. Isso se tivesse uma ponta de brios e ambição por conquistas – e não pelo gordo salário.
Mas não. Ao invés disso, saiu da Formula 1 pelos fundos, marcado apenas como o sujeito que em 19 anos na categoria teve a oportunidade de guiar o melhor carro por anos e tudo o que fez foi guardar lugar para os títulos de Schumacher. Fica na história por um fiasco. E dos grandes.
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